23 de maio de 2008

Poeta da Natureza

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia não há nada mais simples.
Tem só duas datas: a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra todos os dias são meus. Sou fácil de definir. Vi como um danado. Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma. Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei. Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver. Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras; Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais. Um dia deu-me o sono como a qualquer criança. Fechei os olhos e dormi. Além disso fui o único poeta da Natureza.
Alberto Caeiro

1 Comentários:

Anonymous Nádia disse...

adoro esse heterónimo de Fernando Pessoa.... e também gosto imenso deste poema.

29/08/08, 22:16  

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